domingo, 29 de novembro de 2009

RE-CONSTRUÇÕES


O que tem "How Green Was My Valley", filme de John Ford, a ver com registo arqueológico? Pois bem, para Gonçalo Leite Velho tem tudo. Foi por aí que começou a sua palestra, ontem, no centro Unesco do Porto, a propósito de Castelo Velho de Freixo de Numão. Foi uma abordagem interessante e que cativou a plateia, proporcionando um debate também prolixo, sobretudo quando o professor Vítor Oliveira Jorge engrenou a 5.ª e foi tão longe que até falou da consciência e de problemas da dita cuja. Deu para perceber o entusiasmo de Gonçalo Velho e a forma como preparou a sua tese de doutoramento, tópico deste encontro. Com Hollywood a sobrevoar Castelo Velho e a paisagem do Douro profundo. Quanto à re-construção e à reconstrução arqueológica, retive uma ideia: mais importante que montar o puzzle é perceber como ele foi montado. Ou melhor, como terá sido montado. Porque À VERDADE nunca ninguém conseguirá chegar. E se o fizer será apenas por puro fanatismo ou então por grave deformação profissional. Também acontece.

sábado, 28 de novembro de 2009

ALMENDRES RADICAL

A falta de meios nunca é desculpa para um fotojornalista a sério. Por isso, o meu amigo Pedro Correia surpreendeu-me quando encontrou o elo perdido e procurou uma posição radical para registar em imagem o cromeleque de Almendres ou os cromeleques.

WC PICTURE (2)


Faculdade de Letras, 2009.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

UMA AULA DIFERENTE




Na aula de hoje de Espaços Sagrados, Helena Vilaça, docente de sociologia na FLUP, mostrou-me um novo instrumento da arqueologia. A autora de "Da Torre de Babel às Terras Prometidas" dissertou sobre espaços seculares e espaços religiosos. Ficámos a saber que as peregrinações são "uma forma de ritual" e que as férias podem ser entendidas como "peregrinações de lazer", podendo o turismo ser visto como "um ritual de passagem". Vilaça, que se confessou (no sentido estrito) benfiquista, falou também do desporto como um espaço onde "o sagrado religioso e o sagrado desportivo se sobrepõem", encontrando-se os grandes espectáculo "na fronteira do mágico e do religioso". Não tendo dúvidas em considerar que um estádio pode ser visto como "um santuário" ou, no caso específico, "uma catedral". Falou-se também na "beatificação" de Miklos Feher e na capela azul do Estádio do Dragão que foi benzida por um padre benfiquista que logo a seguir teve problemas... Muito interessante também tudo o que desenvolveu sobre a "New Age", ou seja, a cultura/postura daqueles que nasceram depois da II Guerra Mundial. Ou seja, só perdeu quem não esteve presente este momento quase único, onde a universidade se "departamentizou" e os saberes se fundiram.

OS VASCONCELOS


Na passada semana na FLUP realizaram-se duas das três sessões de um colóquio dedicado a Carolina Michaelis e a Joaquim Vasconcelos. Carolina Michaelis é um nome bem mais conhecido mas foi uma oportunidade para descobrir o seu parceiro de muitos anos. Joaquim Vasconcelos foi um daqueles "homens únicos", classificado por um dos palestrantes como "heterodoxo e desalinhado". Costumava dizer: "Não precisamos de ser sacerdotes para podermos falar com Deus". Com Rocha Peixoto e Ricardo Severo, dinamizou a vida cultural do Porto e criou o Museu Comercial e Industrial deste cidade, que funcionou no Palácio de Cristal e infelizmente foi desmantelado. Hoje o seu espólio seria precioso para a área da chamada "arqueologia industrial". O casal Vasconcelos conseguiu reunir uma biblioteca com 6000 volumes que, juntamente com inúmeras cartas e outros documentos, se encontra na Universidade de Coimbra. Autora do histórico "Cancioneiro da Ajuda", Carolina foi a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa - Coimbra - e correspondia-se bastante com José Leite Vasconcelos. Fiquei mesmo com a sensação que o trocavam era um pouco mais que correspondência... Sendo um tema que interessava sobretudo a quem estuda história da arte e filologia, surpreendeu-me o facto de não ter visto ninguém da arqueologia na sala, embora não tenha podido acompanhar na íntegra as sessões. Também vi poucos estudantes de outras áreas. Presumo que o povo anda muito preocupado com as eleições para a associação de estudantes...


Retive ainda uma citação de Fernando Pessoa referida por um dos palestrantes:
"Resta-nos fazer a história do que poderia ter sido".

Ora nem mais.

domingo, 22 de novembro de 2009

FÁBRICA DE VIDRO DO COVO



Imagens da antiga fábrica de vidro do Covo, tema da workshop que se realizou no passado fim de semana em Oliveira de Azeméis. A fábrica começou a funcionar no século XVI e foi abandonada nos anos 20 do século XX. Pondera-se agora uma intervenção arqueológica, depois de realizada a prospecção geofísica (com resultados promissores também em alguns sondagens feitas). Não foi tempo perdido. Pelo contrário. Sobretudo quando tivemos oportunidade de apreciar a paixão que um operário sente pelo trabalho do vidro, nos momentos finais.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

NA CAMINHA É QUE É BOM


A Câmara Municipal de Caminha decidiu interromper as obras para a construção dos Parques de Estacionamento Sidónio Pais, parte integrante do programa “Renovar Caminha” devido ao facto de, no decorrer da obra, terem sido detectados importantes vestígios arqueológicos de uma parte da Muralha Seiscentista da Vila de Caminha.
Os arqueólogos do Município preparam agora uma intervenção que permite colocar a descoberto toda a estrutura, procedendo ao seu registo, de forma a efectuar a correcta avaliação patrimonial do achado em termos históricos e arqueológicos. Só depois destes trabalhos é que a Câmara vai avaliar a situação e saber se pode ou não continuar com o projecto inicialmente previsto.
Neste momento está a proceder-se à construção de muros de contenção na parte da Estrada e do antigo Edifício da Delegação Escolar.
Recorde-se que as obras para a construção dos Parques de Estacionamento Sidónio Pais, parte integrante do “Renovar Caminha” vão custar 446.853,89 euros, e vão criar 170 novos lugares de estacionamento
.

Comunicado da CMC

E AGORA POR GEORADAR



Com Abílio Cavalheiro conduzindo as operações no picadeiro interior.

PROSPECÇÃO GEOMAGNÉTICA

Hoje, em Oliveira de Azeméis, uma interessante "delegação" de alunos de arqueologia da FLUP teve o privilégio de assistir à apresentação dos trabalhos de prospecção geofísica realizados na antiga fábrica de vidro do Covo com o objectivo - que parece conseguido, mas ainda não foi confirmado...- de encontrar os dois fornos da importante unidade de fabrico de vidro desactivada no início do século XX. Fernando Rocha Almeida - que podem ver no vídeo a explicar como, no terreno, se faz prospecção geomagnética - e Abílio Cavalheiro nem sempre se entenderam mas as lições que deram, no auditório e no campo, foram grandes momentos de aprendizagem, embora, claro, por vezes tivessem usado aqueles símbolos a que alguns chamam matemática e que nos fazem sempre supor que a nossa ignorância é esmagadora. E amanhã há mais workshop...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

UMA ÚNICA PALAVRA



Profs. Byron Mcane e Israel Knohl © Hoggard Films/Catherine Yrisarri

Um achado invulgar ou simples fraude?

Ha coisas que, mesmo não estando relacionadas com Portugal, possuem algum interesse. É o caso de um novo documentário produzido pela National Geographic, que infelizmente ainda não parece estar inserido na programação do canal português. De momento o assunto está disponível no site da National Geographic http://channel.nationalgeographic.com/series/expedition-week/4290/Overview#tab-Overview. Trata-se de uma situação curiosa. Foi encontrada há cerca de 10 anos uma estela num mercado de antiguidades. Possui 87 linhas de texto em hebreu. Encontra-se agora guardada em Israel. Foi datada como sendo do séc. I a.C. e foi designada Pedra de Jeselshon. A sua leitura está a gerar uma grande controvérsia, especialmente no que respeita à leitura de uma única palavra, bastante apagada (há quem dia ser impossível ler). Até agora nunca foi seriamente estudada. Porém, uma inspeção recente gerou um certo alvoroço. Primeiro porque se trata de uma combinação invulgar. Em vez do vulgar pergaminho ou epígrafe, trata-se de uma estela em que a escrita foi feita com tinta e não por gravação. A leitura torna-se assim dificil, sendo que muita da escrita se encontra apagada. Em segundo pelo seu conteúdo. Muito do texto é sobre a visão do apocalipse transmitida pelo anjo Gabriel. Por volta da linha 80 o Dr. Israel Knohl leu algo bastante interessante. Se traduzido correctamente, o texto menciona um homem, Simão de Peraea, homem que se intitulou rei e redentor de Israel. Liderou revoltas contra Herodes e os romanos. Por volta de 4 a.C. Simão incendiou um dos palácios de Herodes, sendo capturado pouco depois e executado. O seu corpo foi deixado por enterrar, sendo o maior sinal de humilhação no meio judaico desta altura. É após esta leitura que a situação se complica. Segundo a leitura do Dr. Knohl, a pedra (que se encontra fragmentada) anuncia a ressurreição, três dias depois, do "messias" Simão. A História torna-se agora familiar. Anos antes do nascimento de Jesus, uma história semelhante à sua circulava, exactamente na mesma região. As opiniões sobre a veracidade da pedra obviamente divergem. Além disso, a leitura é ambígua. Porém, se comprovado, segundo Israel Knohl poderá fornecer o elo que falta entre judaísmo e cristianismo, mostrando que a situação pela que Jesus passou não era única. Resta agora comprovar a veracidade do achado, a confirmação da existencia de Simão (provavelmente pela escavação do palácio incendeado) e a confirmação da leitura. Esta história vem no seguimento quase oportuno de outras teorias recentemente apresentadas como a do Testamento secreto de Judas (também apresentado ao grande publico pela National Geographic). De qualquer forma acaba por se tornar num bom programa de fim de semana.

Este texto foi escrito com base no artigo disposto pelo site da National Geographic.

SOCIOLOGICUS



http://suciologicus.blogspot.com/

Blogue dos nossos colegas de sociologia. Muito interessante e um importante auxiliar de estudo. Até sebentas ali estão editadas...

O CÉU PODE ESPERAR

Foto Pedro Correia
No dia em que os homens arrastaram e ergueram estes monólitos, a cidade que neles hoje espreita (Évora) era apenas planície. Da Serra de Monfurado, para nascente, avistam-se as terras que confinam com o Guadiana. Évora-Montemor e Reguengos-Monsaraz são, também com Pavia, as zonas portuguesas de maior concentração menírica. Dos cerca de 150 monólitos que formavam o cromeleque de Almendres - o maior da Península Ibérica - restam 95 mas a monumentalidade continua lá. É algo que nos esmaga e atira para uma dimensão sem tempo, apenas perturbada pela chegada de um ou outro visitante. Nunca lá tinha estado e quem foi comigo fotografar "os calhaus" também não. Aliás, o Pedro nem tinha ouvido falar do cromeleque e até já tinha estado ali bem perto a passar férias. Foi surpreendido por aquilo a que chamou, de imediato, "uma igreja a céu aberto". Seja. Pouco importa. Igreja, calendário astronómico, centro ritual... Li algures que os homens do Neolítico erguiam as pedras com o objectivo de se aproximarem do arco celestial e que é por isso mesmo que surgem mais gravuras no terço distal dos menires. Teorias não faltam. Todos sabemos: a interpretação não raras vezes se confunde com especulação e dá sempre jeito para "encher papel". Deixemo-lo de lado. Fiquemo-nos pela contemplação do cenário. Da terra, da pedra e do imenso universo que coroa a pintura digital. E com o silêncio do vento que sopra no topo do montado...
O céu pode sempre esperar.

domingo, 15 de novembro de 2009

CASTANHEIRO DO VENTO, 2009



Um cenário lunar. Poeira. A paisagem a rodar lentamente enquanto o dia aquece.
Xisto. Mais Xisto. Ainda xisto.
Cada quadrícula é um mundo, cada balde de terra um grão desse mundo que se separa.
Castanheiro do Vento, campanha de 2009. Os últimos dias.
Susana Oliveira Jorge, de chapéu de palha largo, canta e escava.
Vítor Oliveira Jorge tenta antecipar-se ao tempo que passa.
Agora, quando a chuva nos envolve, chegam as saudades de um Verão passado no passado.

TESE DE MESTRADO

Para todos os interessados, informamos que no dia 14 do próximo mês, as 14h, na sala polivalente do 4º piso da FLUP será defendia a tese de mestrado de Jorge Davide Sampaio, que tem como tema as lareiras experimentais do Paleolítico Superior cujo modelo são as lareiras do Côa.
Este tema será sem dúvida do maior interesse para todos os futuros arqueólogos e demais pessoas interessadas no assunto. Por isso, reservem esse dia para enriquecer um pouco mais o conhecimento....

sábado, 14 de novembro de 2009

Santa Cruz


                                                                     Réplica do Santa Cruz, Lisboa (foto André S.)


Ao falar de Santa Cruz não estamos, neste caso, a falar de uma terra, nem mesmo de uma caravela. Este Santa Cruz é bem mais recente e possui um motor Rolls-Royce e literalmente "carradas" de rebites em aço. Refiro-me ao famoso Hidro-Avião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Trata-se do modelo Fairey III D MK. 2 do qual o unico exemplar sobrevivente é exctamente o "Santa Cruz". Visto de perto, para um avião com cerca de 70 anos possui um aspecto imponente.

 A Aeronave

O Modelo Fairey foi desenvolvido e produzido pela Fairey Aviation, uma companhia Britânica, o primeiro exemplar, o Fairey IIIA e voou pela primeira vez em 1918. Foi encomendado pela Marinha Portuguesa para o lançamento de torpedos a partir do ar. Entre os exemplares encomendados chegou o "Lusitânia", o primeiro Fairey encomendado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Este possuía algumas alterações como a possibilidade de transportar os tripulantes lado a lado, uma maior envergadura e maior alcance. 
                                                


 Santa Cruz, Museu da Marinha

 Assim o modelo recebe o nome de F-400 Transatlantic. Chega a Portugal em Janeiro de 1922, mesmo a tempo de em Março levantar voo com os dois "pioneiros". Infelizmente o primeiro Modelo sofreria de complicações ao chegar perto da Costa Brasileira, despenhando-se nas de S. Pedro. Foi encomendado um outro F-400, mas tambem este acabou inutilizado. Eis que finalmente chega o "Santa Cruz", um F-402, também um modelo IIID. A Marinha encomendaria outros exemplares até que serem "retirados de serviço" em 1930.
  

Lusitânia a sair da barra do Tejo


O Fairey provou ao longo dos anos que serviu, ser um aparelho fiável permanecendo em uso em vários países, incluindo Portugal e Austrália. Tornou-se o aparelho mais famoso saído da Fairey Aviation, com um pequeno empurrão dos nossos aventureiros, que executaram a primeira travessia do Atlântico Sul, em 1922. Lindberg so voaria pelo Atlantico Norte em 1927, num avião com o cocpit fechado (enquanto o Fairey pouco protegia os tripulantes das intemperies). Para quem não poder visitar o "verdadeiro" pode sempre ver a réplica em tamanho real e em aço junto da torre de Belem .

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

MENIR DE ALMENDRES

Um dos muitos menires do Alto Alentejo. Neste caso o de Almendres, muito próximo do cromeleque com o mesmo nome. Este menir apresenta um báculo gravado associado a linhas onduladas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

CROMELEQUES

Vale Maria do Meio
Portela de Mogos

Almendres
Num dia em que o país esteve dividido entre a chuva (a Norte de Montejunto-Estrela) e algum Sol (a Sul), percorri 800 quilómetros para visitar três dos cromeleques do Alto Alentejo. O meu amigo PEDRO CORREIA, repórter-fotográfico do JN, foi muito mais que um parceiro de viagem, como podem já apreciar. Almendres, Portela de Mogos e Vale Maria do Meio são cromeleques muito diferentes. Situados num raio de dez quilómetros, perto de Évora, cidade que, aliás, se avista perfeitamente na abertura para nascente de Almendres. Não sobrou muita luz diurna para apreciá-los e não foi fácil detectar algumas das gravuras. Ficou, porém, a sensação de um dia em cheio. Ao qual se acrescentou um estufado de mão de vaca com chouriço local e um daqueles queijos com patine que começam por agredir o palato e que depois se comem até às migalhas.



A arqueologia e o património subaquáticos em Portugal e o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática






www.ipa.min-cultura.pt/cnans

FIM DO FORUM ARQUEOLOGIA....

E FOI O FIM....................................................
É DE LAMENTAR QUE O FORUM ARQUEOLOGIA, UM DO PRINCIPAIS DIVULGADORES DA ARQUEOLOGIA ON-LINE TENHA CHEGADO AO FIM DOS SEUS DIAS....
AQUI FICA UMA PALAVRA DE APOIO PARA TODOS AQUELES QUE FIZERAM DAQUELE LOCAL UM LUGAR DE GRANDE ACTIVIDADE ARQUEOLÓGICA.
UM ESPECIAL ABRAÇO AOS SEUS FUNDADORES E COLABORADORES PELO GRANDE TRABALHO DESENVOLVIDO DURANTE ESTES ANOS.



G.A.P - GRUPO DE ARQUEOLOGIA DO PORTO.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ARQUITECTURAS...

Todos sabemos que nos últimos anos tudo tem acontecido à nossa orla costeira. Espaço privilegiado para a especulação imobiliário - por ora imobilizada por causa da crise do subprime... -, mas há sempre uma perspectiva diferente de olharmos para os mamarrachos que ali vão surgindo. Esta espécie de moinho, por exemplo, na marginal matosinhense de Lavra. Fica o desafio a todos: inventem um estilo e um nome para este tipo de construção. Deixo a minha sugestão: Portugal no seu melhor no jeito de Portugal dos Pequeninos.

sábado, 7 de novembro de 2009

CASTELO VELHO

Castelo Velho, este Verão
"Castelo Velho, a Natureza e o Tempo: questões relativas à Re-construção de um lugar" é o título da tese de doutoramento de Gonçalo Leite Velho, que será defendida na próxima terça-feira, às 15 horas, no anfiteatro nobre da Flup. Serão arguentes os Professores Doutores Joaquim Manuel Costa Ramos de Carvalho e Luiz Miguel Oosterbeeck. Sendo Castelo Velho de Freixo de Numão uma das referências dos estudos pré-históricos da FLUP, aí está algo que podem marcar nas vossas agendas...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

NA ROTA DO MEGALITISMO

Anta-capela de Pavia

Terça-feira vou a Évora e a Reguengos recolher imagens para um trabalho deste semestre sobre menires e cromeleques. Se alguém quiser vir, há um lugar no banco de trás de um Audi com 210 mil kms. O roteiro prevê passagens pelos cromeleques de Almendres e Xarex, com um saltinho ao menir do Outeiro.
SABER MAIS:
http://www.praxisarchaeologica.org/issues/2008_7989.php
http://crookscape.blogspot.com/

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

É AQUI PERTO



Biblioteca Municipal Ferreira de Castro
2o e 21 de Novembro de 2009
A Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis e a Associação Profissional de Arqueólogos organizam um workshop intitulado Prospecção Geofísica e Arqueologia: a Fábrica de Vidro do Covo, que decorrerá no Auditório da Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, em Oliveira de Azeméis, nos próximos dias 20 e 21 de Novembro de 2009. Esta iniciativa, que conta, ainda, com os apoios da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e da Universidade de Aveiro, focará dois temas centrais de interesse para todos quantos se interessam pela aplicação das técnicas de prospecção geofísica em Arqueologia e pela Arqueologia Industrial:

•As técnicas de prospecção do subsolo não destrutivaso aplicáveis à Arqueologia
Objectivos:
■Apresentar as técnicas de prospecção geofísica aplicáveis na detecção de sítios arqueológicos;
■Discutir as metodologias aplicáveis na elaboração de uma campanha de prospecção geofísica;
■Analisar a relação de complementaridade entre os sistemas de informação geográfica e cartográfica, a prospecção geofísica e a investigação arqueológica;
■Apresentar os resultados da campanha de prospecção geofísica na Quinta do Côvo.
•A História e património da indústria vidreira
Objectivos:
■Discutir a História da indústria vidreira em Portugal;
■Reflectir sobre o papel da investigação arqueológica na compreensão das tecnologias de fabrico do vidro;
■Avaliar a importância do património industrial vidreiro na memória colectiva.
Este workshop tem como destinatários principais os arqueólogos, os estudantes de Arqueologia, os engenheiros do campo das Geociências e os estudantes da mesma área. Dado o tema que lhe serve de base o workshop destina-se ainda aos interessados na preservação do património industrial, e na tecnologia de fabrico do vidro. A última sessão destina-se ao público em geral, nomeadamente aos oliveirenses, embora também possa interessar a uma parte do público que estará presente nas outras sessões.

A inscrição custa 20 €. E pode ser feita aqui:
http://www.aparqueologos.org/geofisica.php

Proposta de Leitura: O Património Genético Português

O Património Genético Português
Luísa Pereira; Filipa M. Ribeiro



A história humana preservada nos genes.
Quem somos, afinal?
Combinando contributos de áreas tão diferentes como a genética, a arqueologia, a antropologia, a história e até a climatologia, este livro oferece uma visão multifacetada de uma memória que deixamos impressa neste mundo: seja pelos genes, pelas viagens, pelas relações interpessoais ou por um pouco de tudo isto. Cada homem, na sua especificidade genética, tem um significado evolutivo. E não se pode compreender a evolução sem compreender a variação.
Fruto de um trabalho de investigação científica, a presente obra inova pela sua interdisciplinaridade, acessibilidade, complementaridade e pelo seu conteúdo de referência para quem trabalha em evolução humana. O leitor é acompanhado ao longo de uma aventura de múltiplas facetas, explorando muitas perspectivas dos recentes avanços no conhecimento quanto às origens e migrações humanas no passado, focando uma temática que nunca havia sido tratada em livro: o património genético português.

+/- 15,oo€

Numa recente entrevista ao semanário "Grande Porto", a autora afirma que 11 por cento da população do Sul de Portugal (Alentejo e Algarve) apresenta uma linhagem genética de origem africana, valor que desce para 6% na região centro e para 3% no Norte.

Proposta de leitura: Os Celtas - Da Idade do Bronze aos Nossos Dias

Os Celtas - Da Idade do Bronze aos Nossos Dias
John Haywood




Acompanhar a história dos Celtas é percorrer o fio da história de grande parte da Europa – da Europa Central à Irlanda, da Idade do Bronze aos nossos dias. Já Heródoto afirmava que o Danúbio «tinha a sua fonte no país dos Celtas». Com o passar dos séculos, foram forçados a avançar pela Europa, rechaçados primeiro pelos Romanos, depois pelos povos germânicos; mas deixaram a sua marca – na cultura, nos costumes e, em alguns casos, na língua. Através de uma análise cuidada das muitas fontes disponíveis, John Haywood apresenta-nos a história de um povo que ao longo dos tempos deu mostras de uma extraordinária capacidade de resistência e de adaptação.

+/-19,90€

Proposta de Leitura: LAPEDO – UMA CRIANÇA NO VALE

LAPEDO – UMA CRIANÇA NO VALE
João Aguiar

No final de 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, a poucos quilómetros de Leiria, o esqueleto de uma criança que viveu há 25 mil anos. As características muito particulares desse esqueleto criaram um «facto arqueológico» que teve repercussões em todo o mundo, apaixonou os media e deu origem a uma vivíssima polémica. É este o tema de Lapedo – Uma criança no vale. Não se trata de um romance, nem de um livro de contos: não é, de todo, uma obra de ficção. Mas também é verdade que este assunto é tão interessante, tão apaixonante quanto um bom romance deve ser. E, factor adicional de sedução, trata-se de transmitir algo que, até agora, se tem mantido, em grande parte, no domínio restrito, quase «esotérico», da Arqueologia.É certo que o caso da «criança do Lapedo », quando veio a lume, teve uma larga cobertura mediática. Porém, a informação foi veiculada, necessariamente, de modo parcelar e com pouca profundidade. Além disso, uma vez passada a «onda», saiu da ribalta e voltou, portanto, a confinar-se ao espaço académico. Este foi um segundo motivo que levou João Aguiar a escrever o presente livro: quis reavivar a memória do que sucedeu, além de fornecer esse material pela primeira vez àqueles que dele ainda não tomaram conhecimento; e quis fazê-lo tentando cobrir todos os factos relevantes e chamar a atenção para as possíveis implicações de ordem científica — mas também, digamos, psicológica e cultural.O relato dos factos é complementado — mas nunca misturado — com alguma especulação. O que ao autor pareceu natural: seria impossível, tendo na mão estes dados, limitar-se a uma seca descrição sem pensar sobre eles.


Preço: +-14 euros.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

REVISTA OPPIDUM




Pormenores dos trabalhos realizados em Setembro, com a participação de alguns alunos de arqueologia da Flup, sob a orientação do arqueólogo Manuel Nunes



A Câmara Municipal de Lousada, através do seu Gabinete de Arqueologia, tem a honra de convidar todos os interessados para a sessão pública de apresentação do terceiro número da revista OPPIDUM (Revista de Arqueologia, História e Património), uma edição do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Lousada (ano 4 - n.º 3 - 2008/2009)

A apresentação do actual volume, que terá lugar no próximo dia 6 de Novembro (6ª feira) de 2009, pelas 21.30h, na Biblioteca Municipal de Lousada, estará a cargo do Dr. António Silva, Arqueólogo do GAU (Gabinete de Arqueologia Urbana da Câmara Municipal do Porto).

No mesmo dia, e dando seguimento à política de divulgação editorial da autarquia na área da Arqueologia e do Património, será disponibilizada no sítio da Câmara Municipal de Lousada, em http://www.cm-lousada.pt/VSD/Lousada/vPT/Publica/O+Concelho/PublicacoesMunicipais/ a versão integral do segundo número da revista OPPIDUM, editado em Novembro de 2007 (ano 2 - n.º 2 - 2007).


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Museu do Côa vai abrir no Outono



O Museu de Arte e Arqueologia do Côa está quase pronto. Falta instalar os conteúdos e acertar o modelo de gestão. O ministro da Cultura visitou ontem o equipamento sem concretizar a data da inauguração.
O fresco do interior escuro do Museu do Côa contrastava com o calor abrasador do exterior. Apesar de ainda faltar iluminação cénica, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro foi guiado pelo subdirector do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR), João Pedro Ribeiro, por tudo quanto era sala e corredor. No final, o governante elogiou o projecto "arquitectonicamente muito conseguido, que lembra coisas egípcias e está muito integrado no território" e deixou ponto assente que ali se abre "uma porta de oportunidade para a região".
O ministro só não sabe ao certo quando a porta do museu se abrirá ao público, mas estima que possa ser inaugurado em "finais de Setembro ou princípios de Outubro", até porque "muito brevemente deve estar tudo pronto do ponto de vista físico". Uma certeza parece ter: "Julgo que não abrirá antes das eleições [Legislativas]. Abrirá quando estiver pronto".
Neste momento, toda as atenções se centram no modelo de gestão que permita delinear o funcionamento de uma estrutura que custou 17,5 milhões de euros. Durante os primeiros tempos o espaço deverá ser gerido pelo IGESPAR, mas José Pinto Ribeiro diz que espera "conseguir consensualizar uma solução até ao final de Outubro". O modelo poderá passar por reunir numa sociedade anónima os dez concelhos que integram a Associação de Municípios do Vale do Côa, agentes económicos privados e organismos do Estado. "As percentagens de participação são variáveis".
O ministro espera que aquela estrutura museológica seja "um instrumento de cativação de pessoas, mas, sobretudo, que lhes explique porque é importante do ponto de vista da memória e da identidade". O presidente da Câmara de Vila Nova de Foz Côa espera mais. Emílio Mesquita deseja que seja um motor de desenvolvimento da região. Enumerou ao ministro os 70 projectos que vão ser apoiados pelo programa Provere, salientando que "todos eles giram em volta das gravuras do Côa". E que "é preciso dar confiança a quem vai investir na região". No fundo é uma segunda oportunidade para o Côa depois das expectativas iniciais não se terem concretizado. 




EDUARDO PINTO
IN: Jornal de Notícias

A HISTÓRIA DE UMA ESPADA

(PALESTRA DE FRANCISCO DE ALMEIDA GARRETT NO ÂMBITO DO PROGRAMA DE INICIATIVAS DO GAP, REALIZADA NA PASSADA 2.ª FEIRA NA FLUP)

Muito boa tarde a todos, o meu nome é Francisco de Almeida Garrett.
Queria começar por dizer-vos que não sou arqueólogo, nem teólogo, nem filósofo, nem físico.
Sou um homem vulgar que recebeu um convite muito simpático e ao qual se não pôde furtar.
Está esclarecido o primeiro mistério: sou apenas um amigo do Eugénio Queirós, o que não é pouco, seguramente, mas que não justifica a minha presença aqui e muito menos os cartazes espalhados por esta Faculdade.
...
Passemos ao segundo mistério...
Alguém que, como eu, se atreve a dirigir uma prédica sobre DEUS sem ter qualquer reconhecimento académico para o efeito, será provavelmente um eriçado ATEU ou, então, um grande homem de FÉ.
Mas não. Não sou ATEU. E também não sou um homem de FÉ.
A FÉ não raciocina, não investiga, não descobre NADA.
...
Encurtando razões, sou alguém que defende, à luz da RAZÃO, e não da FÉ, que DEUS existe.
E igualmente existe, no meu entendimento, uma relação da arqueologia com DEUS.
Tentarei pô-la a nu, apelando aos vossos conhecimentos, à vossa imaginação, bem como a Jean Guitton.
...
Imaginem-se numa intervenção arqueológica.
E suponham que, nessa intervenção, vocês encontram uma espada de ferro das legiões romanas (o famoso GLÁDIO) e determinam que essa espada tem 2050 anos.
...
É uma espada muito antiga, 2050 anos é muito tempo!
E, todavia, estamos ainda bem longe de saber a história da espada ou, pelo menos, do material que a compõe: o ferro.
...
Donde proveio o ferro que tomou a forma de espada?
...
Se tentarmos refazer a HISTÓRIA DOS ÁTOMOS daquele ferro, entramos na história invisível da espada, sobre a qual nunca meditamos.
A espada, já o sabemos, obteve a sua forma há 2050 anos, mas uns tempos antes estava incorporada, sob a forma de minério bruto, no interior de uma rocha, da qual foi decantada.
...
A questão que se segue é a de saber há quanto tempo é que o minério bruto estava incorporado na rocha?
E a resposta é: Seguramente desde que existe o planeta Terra!
...
E o planeta Terra existe há quanto tempo?
Estima-se que há quatro mil milhões e meio de anos.
... Portanto, pela história dos seus átomos, a espada das legiões romanas que vocês encontraram não tem, afinal, 2050 anos, mas um pouco mais: quatro mil milhões e meio de anos.
É muito tempo.
...
E já terá chegado ao fim a nossa investigação?
Ainda não.
Antes de existir o planeta Terra, muitos antes, muitos milhões de anos antes, aquela espada existia sob a forma de átomos de ferro perdidos numa NUVEM DE MATÉRIA NASCENTE.
...
Que nuvem é esta? Qual é a causa desta nuvem?
Muito provavelmente esta nuvem tem na sua génese a explosão de uma estrela ocorrida milhões de anos antes.
...
Vejam bem onde é que já vai a vossa espada: numa estrela.
E prossigo.
Bom... e antes de a estrela existir? As estrelas não são eternas.
Desta vez teremos de recuar o máximo possível... teremos de recuar até à origem do universo: há quinze mil milhões de anos, ao “Big Bang”.
...
Notem: Estou a dar como certa a teoria do “Big Bang”. Pelo menos por agora, é a melhor que temos.
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Duas palavrinhas sobre a teoria do “Big Bang”...
O “Big Bang”, como sabem, está associado a uma explosão: a explosão original.
Devido ao impulso dessa explosão original, as galáxias expandem-se e afastam-se umas das outras a uma velocidade X, a uma velocidade DETERMINADA, o que permitiu aos físicos, rebobinando o “filme” cósmico, imagem a imagem, determinar o momento preciso em que todo o universo estava concentrado num único ponto microscópico.
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Mas atenção: os físicos não conseguem chegar exactamente ao “TEMPO ZERO”.
Quase chegam lá, mas não o alcançam.
Ficam-se pelos primeiros milésimos de milionésimo de segundo QUE SE SEGUIRAM à explosão.
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Por outras palavras: A física descreve com bastante rigor o que se passou imediatamente A SEGUIR à explosão original, mas é incapaz de dizer o que se passou ANTES desse preciso momento.
Porquê?
Porque não é possível recuar mais, ou seja, não é possível chegar ao “tempo zero”.
... Os primeiros milésimos de milionésimo de segundo QUE SE SEGUIRAM à explosão - concretamente 10/43 segundos - constituem uma barreira intransponível.
A essa barreira os físicos chamam “barreira de Planck”, assim denominada porque o físico alemão Max Planck foi o primeiro a constatar que a ciência não consegue explicar o comportamento dos átomos quando a força da gravidade se torna extrema.
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Perguntar-me-ão: Mas o que tem DEUS a ver com isto?
Já lá vamos.
Por agora, recapitulemos que a vossa espada, que começou por ter 2050 anos – e parecia muito! -, tem já, afinal, pela história dos seus átomos, 15 mil milhões de anos.
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Aquela espada, aquele GLÁDIO, é, de facto, um objecto que merece ser contemplado.
Atravessou o tempo – eu diria melhor: atravessou TODO o tempo – até chegar às vossas mãos.
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E mais curioso ainda...
Ainda não chegou ao fim a história da vossa espada.
A vossa espada é ainda mais antiga. É uma verdadeira relíquia cósmica.
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A questão que se nos coloca, agora, é a de saber como poderemos avançar mais na nossa investigação.
Para irmos mais além na investigação sobre a idade da vossa relíquia cósmica, precisamos de saber o que se passou na origem do universo... há 15 mil milhões de anos.
Ou seja: precisamos de superar a “barreira de Planck”.
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Nós já demos por adquirido que o universo inteiro (incluindo a vossa espada) nasceu de uma explosão que provocou a expansão da matéria que nós observamos.
Mas, concretamente, o que é que explodiu?
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O que explodiu poderá ser definido como uma esfera microscópica, milhões de vezes mais pequena do que um núcleo de átomo, na qual estavam contidas as galáxias, as estrelas, os planetas e até a vossa espada.
Mas donde veio essa esfera? Donde veio a energia que causou a explosão? E donde veio o espaço para o interior do qual se expandiu o universo?
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Pois é. Os físicos não têm a mais pálida ideia sobre isso.
Para trás da chamada “barreira de Planck”, para trás dos primeiros milésimos de milionésimo de segundo QUE SE SEGUIRAM à explosão, o MISTÉRIO É TOTAL.
Um mistério que os próprios físicos não pensam sequer desvendar um dia.
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Nem eu, nem vocês, nem ninguém, sabe dizer qual é a verdadeira idade do ferro que compõe a espada das legiões romanas.
Ninguém consegue explicar como é que ela existe e porque é que ela existe.
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E, NO ENTANTO, algo mais tem de existir para além da “barreira de Planck”.
Vou mais longe: algo tem de existir para além do “TEMPO ZERO”.
Porque supondo que, num dado momento, nada existia, nada poderia existir agora.
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E existe.
Existe um universo celestial, existe a matéria, existe a vossa espada, existe a vida e – mais importante! - existe a INTELIGÊNCIA e a CONSCIÊNCIA.
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Podemos apelar à teoria quântica e dizer que a matéria não existe, que tudo isto que nós vemos é uma alucinação, como no sonho, mas não há dúvida de que pensamos.
Pelo menos a inteligência e a consciência existem!
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Como foi isto possível?
Será legítimo supor a existência de DEUS?
E será possível PROVAR que DEUS existe? Ou que não existe?
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Chegados a este ponto, teremos necessariamente de definir o que é DEUS e o que é PROVAR.
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Proponho a seguinte noção de DEUS:
DEUS é o Ser de quem os demais seres recebem a existência, o Ser primeiro, fora do espaço e fora do tempo, espírito dotado de entendimento e de vontade, que é eterno, imutável e que existe por si mesmo, não tendo sido criado por nada.
Repito:
DEUS é o Ser de quem os demais seres recebem a existência, o Ser primeiro, fora do espaço e fora do tempo, espírito dotado de entendimento e de vontade, que é eterno, imutável e que existe por si mesmo, não tendo sido criado por nada.
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Ora, será possível PROVAR a existência ou a inexistência deste Ser?
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É certo que DEUS não se vê,
Mas lembrem-se que uma boa parte da realidade humana também não é acessível à observação.
Ou seja: existem forças e entidades que não observamos e que, porém, existem.
Alguns exemplos infantis: o vento, o processo de evolução natural, o sentimento, a força da gravidade, etc..
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Uma vez definido DEUS, a questão seguinte passa por saber o que é PROVAR e, mais concretamente, o que é PROVAR qualquer coisa a respeito de DEUS.
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Teremos sempre de arredar deste domínio a chamada PROVA científica. Porque a ciência trabalha com o palpável, com o que se pesquisa empiricamente e com o que pode ser alvo de observação.
Ora, nós já definimos DEUS. DEUS é um ser transcendente, não é uma mera coisa do mundo, pelo que nunca poderia ser observado, encerrado no material da experiência ou ser alvo de investigação laboratorial.
Se DEUS pudesse ser observado, encerrado no material da experiência ou ser alvo de investigação laboratorial, já não seria DEUS.
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A existência ou inexistência de DEUS é assim uma questão para a qual a ciência é neutra, dado que nem sequer faz parte do seu escopo analítico.
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Eu queria deixar aqui muito claro que a ciência não coloca qualquer obstáculo à demonstração filosófica da existência ou inexistência de DEUS e, pelo contrário, fornece elementos de análise ao pensamento filosófico: a idade provável do universo, a lei da entropia, a ordem do cosmos, os axiomas biológicos, etc.
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Bom... Mas, então, se nós não podemos PROVAR cientificamente a existência ou a inexistência de DEUS, que tipo de PROVA é que nós buscamos?
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Por PROVA devemos entender a operação mental com que se busca estabelecer a verdade de uma afirmação ou a validade de uma tese com um grau de evidência que exclua a DÚVIDA RAZOÁVEL.
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Reparem que, se aceitássemos apenas a PROVA CABAL, a CERTEZA ABSOLUTA, nem sequer poderíamos afirmar que existiram Moisés, Confúcio, Jesus ou Buda. Porventura nem Napoleão.
E, todavia, não temos hesitações em afirmar que eles existiram. Afirmamo-lo porque estabelecemos certos factos com um grau de evidência que exclui a DÚVIDA RAZOÁVEL.
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Em suma, se o conhecimento dependesse de CERTEZAS ABSOLUTAS, não valeria a pena estudar História.
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Definido DEUS e definida a PROVA que pretendemos fazer da sua existência ou inexistência, julgo que podemos prosseguir.
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É mais uma viagem. Desta feita uma viagem pela história da filosofia da religião... de que eu faço um esboço muito modesto e sintético no meu livro “Na Senda da Divindade”.
Desde Platão, há 2500 anos, que se fala nas PROVAS da existência de DEUS.
E prossegue ainda hoje, no mundo moderno, o debate sério e rigoroso do ponto de vista intelectual acerca dessas PROVAS, ao contrário do que a generalidade das pessoas possa pensar.
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Vejamos, pois, à luz do critério de PROVA que estabelecemos, os argumentos mais interessantes que na história da filosofia foram sendo apresentados para atestar a existência de DEUS.
Deixarei para o fim aquele que constitui o único argumento digno de registo a favor da inexistência de DEUS.
A tais argumentos, chamarei “PROVAS”.
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A primeira PROVA de que vos quero falar é a chamada PROVA cosmológica. No fundo, assenta num axioma que se aplica à ciência: “não há efeito sem causa”.
Qualquer coisa tem uma causa, que por sua vez tem uma causa e assim sucessivamente.
Mas há-de haver um ponto final nesse retrocesso, uma causa primária, aquilo que Sócrates, à beira da morte, terá definido como “causa das causas”.
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Todos nós já procuramos a causa de tudo aquilo que não foi obra do homem: o universo, o mundo, a vida, o ferro da vossa espada.
Donde proveio tudo isso?
Já vimos que, para trás da “barreira de Planck”, não pode ter havido um momento de nada absoluto, porque tudo o que começa a existir exige a acção duma realidade já existente que a traga ou conduza à existência.
Vai daí que: ou nada devia existir agora ou temos de confessar que há alguma coisa que não começou a existir mas existiu desde sempre sem ter recebido a existência.
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O que é essa coisa?
Será DEUS?
Será o Ser de quem os demais seres recebem a existência, o Ser primeiro, fora do espaço e fora do tempo, espírito dotado de entendimento e de vontade, que é eterno, imutável e que existe por si mesmo, não tendo sido criado por nada?
Será legítimo supor que um tal Ser potencializou a ocorrência do “Big Bang” e garantiu a partir de então a existência do universo?
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À luz da PROVA cosmológica, tais são as questões que se colocam.
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Mas avancemos.
Esta PROVA cosmológica - assente no axioma “não há efeito sem causa” - deve ser MESCLADA com a chamada PROVA teleológica, a qual, através da observação do universo e do mundo, indica que estes têm muitas semelhanças com um relógio e CONCLUI pela existência de uma inteligência criadora.
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A favor desta segunda PROVA - a PROVA teleológica - está a segunda lei da termodinâmica, que diz que todo o sistema abandonado a si mesmo degenera para a desordem.
E, em vez de desordem, a ordem do universo é de tal magnitude que Newton dizia que do seu telescópio via DEUS a caminhar.
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Há também a questão da VIDA...
As observações geológicas e as experiências biológicas demonstram que o planeta Terra não possuiu sempre seres vivos e que a vida só pode originar-se da vida.
São famosas as experiências de Louis Pasteur. E bem demonstram que todo o ser vivo provém de outro ser vivo.
Todo o ser vivo começa por uma simples célula e toda a célula nasce de outra e noutra, tal é o primeiro axioma biológico.
Uma vez que o mais não pode provir do menos, também a vida não pode provir da matéria inorgânica.
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A investigação científica já documentou o campo infinitamente limitado de condições iniciais adequadas para que se pudesse desenvolver vida no universo. ...
É tão ínfima a possibilidade de o nosso mundo ter criado as condições para a sobrevivência e o desenvolvimento dos seres humanos que é possível concluir que um Ser superior controlou e afinou as condições físicas necessárias ao efeito visível.
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Centremo-nos em nós: seres humanos. E esbocemos aquela que considero ser a terceira grande PROVA a favor da existência de DEUS. Define-se em duas palavras: PROVA moral.
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Nós, seres humanos, chegados ao uso da razão e da reflexão, distinguimos entre o bem e o mal moral e julgamos que devemos evitar o mal e praticar o bem.
Existe um senso comum do que está bem e do que está mal. Jamais alguém pensou, em consciência, que o infanticídio e a tortura de idosos POR PRAZER constituíssem um bem.
E nem a educação, nem a vontade individual, nem as leis humanas podem explicar uma lei tão universal, tão constante, tão indeclinável.
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A moral não é mais do que uma lei universal e racional que impõe a virtude e proíbe a injustiça.
Uma lei. Uma lei superior ao homem, que não consegue ignorá-la, dado que sente os seus efeitos: quando cumpre a lei, sente subir em si a satisfação do dever cumprido; quando a transgride, é acometido de remorsos.
Uma lei eterna e imutável, que não pode provir do mundo físico, nem da natureza humana.
E não sendo concebível uma lei sem legislador, uma obrigação sem autoridade e uma autoridade sem um ser que a exerça, é lícito, uma vez mais, admitir que DEUS existe.
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Uma quarta PROVA a favor da existência de DEUS pode bem chamar-se a PROVA da iluminação divina.
Há no mundo verdades inabaláveis e eternas. Três exemplos: (I) o todo é maior do que a parte, (II) dois mais dois são quatro, e (III) deve ser praticado o bem e evitado o mal.
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Se os homens são finitos e limitados - e são! -, donde provêm estas verdades inabaláveis e eternas?
Se não podem provir das sensações, porque estas são mutáveis e efémeras, nem do espírito humano, que embora profundo é limitado, é lícito admitir que provirão de um Ser e autor eterno.
Trata-se, no fundo, da doutrina de Agostinho de Hipona sobre a iluminação divina: os homens recebem de DEUS, por iluminação, o conhecimento de verdades eternas, cabendo ao intelecto a tarefa de pensar no quadro da ordem natural já estabelecida.
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Quem terá estabelecido esta ordem natural? O “nada” não pode ter sido, porque do nada, nada provém. E o “acaso” também não foi seguramente, porque... o que é o acaso? Nada!
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Duas palavrinhas, por fim, sobre uma quinta PROVA a favor da existência de DEUS: trata-se da chamada PROVA ontológica, traduzida num mero exercício intelectual e desenhada por Anselmo de Cantuária.
De uma forma simples: se o homem concebe DEUS, o ser perfeito, ele tem de existir, porque, se não existisse, tinha uma imperfeição: não existia.
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Parte-se da palavra DEUS. Esta palavra vai de encontro a um ser de tal ordem que não nos é possível conceber outro maior. Ora, um ser que existe no espírito e na realidade é maior do que um ser que existe apenas no espírito. E, portanto, visto que a noção de DEUS implica que ele seja o maior de todos, torna-se necessário que exista na realidade.
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A crítica que se aponta a esta PROVA é a seguinte: o ser humano, um ser imperfeito, pode produzir mentalmente o perfeito, sem que o mesmo exista a não ser no pensamento.
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Se nós ficcionarmos, como Paul Henle, a existência de um ser chamado Nec, é-nos possível supor a sua existência necessária sem que isso implique a sua real existência.
Ou seja, é possível PROVAR, a priori, dentro do pensamento, todas as existências, mas estas serão meramente pensadas, e não genuínas, salvo se for possível unir pensamento e ser.
Pensamento e ser são diferentes.
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Mas...
Parafraseando Hegel, os que repetem sem cessar que pensamento e ser são diferentes deviam dar por adquirido que isso não é desconhecido dos filósofos.
Não pode haver conhecimento mais trivial do que esse.
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O problema é que – e atenção: vai sair complicação! -, o problema é que, dizia, pensamento e ser só estão separados no plano do finito, não podem estar separados no plano do infinito.
Ora, o finito opõe-se a si próprio, não é subsistente por si mesmo, havendo que superá-lo passando-se ao plano do infinito onde aquele finito está contido.
E eis, finalmente, o conceito que não pode, sem absurdo, deixar de existir, e que tem a existência como predicado: o conceito de infinito ou, se quisermos, de DEUS, que une pensamento e ser.
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E vimos, de uma forma leve, as cinco PROVAS que considero dignas de registo a favor da existência de DEUS.
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Já a favor da inexistência de DEUS, a única PROVA que me parece ter algum valor reduz-se a uma palavra: o mal, o mal na Terra.
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Por todo o lado campeia a crueldade humana e o sofrimento causado pela miséria, pela doença, pelos desastres naturais.
Daqui resulta o seguinte: ou DEUS quer e não pode evitar o mal (e nesse caso não é omnipotente) ou DEUS pode e não quer evitar o mal (e nesse caso não é bom).
Bem...
Isso interessa-nos pouco, porque já definimos DEUS e da sua noção não faz parte que ele seja necessariamente bom e omnipotente.
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Mas vou mais longe: um DEUS bom teria de criar o mal e não poderia eliminá-lo.
Porquê?
Primeira razão: DEUS, para ser bom, teria sempre de dar valor à vida humana, criando homens livres e capazes. Mas para isso teria de permitir que os homens, na sua liberdade, pudessem optar entre o bem e o mal. Ou seja: teria de criar o bem e o mal.
Segunda razão: Se não existisse o mal, o mundo seria muito aborrecido, os seres humanos viveriam acometidos pela indiferença e não haveria heroísmo, solidariedade, compaixão, etc..
Terceira razão: Há muitos, muitos males, que surgem por bem. Recordando Francisco de Sales, a obra da Providência é, aos olhos de muitos, como certos bordados: vistos pelo avesso são um amontoado desconexo de linhas e pontos; vistos pelo direito são, por vezes, autênticas maravilhas.
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Sumariadas e levemente analisadas cinco PROVAS a favor da existência de DEUS e uma PROVA a favor da sua inexistência, é altura de fazermos um BALANÇO.
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Há poucos anos, o jornalista Thomas Vasek abalançou-se a fazer esse BALANÇO socorrendo-se da teoria matemática.
Concretamente, o que fez ele?
Aplicando a fórmula do matemático inglês Thomas Bayes que permite calcular a probabilidade de um acontecimento em função da realização de outro e determinar a probabilidade das causas de um acontecimento através dos efeitos observados, Thomas Vasek decompôs o seu universo de estudo em cinco campos de índices - nascimento do cosmos, ordem cósmica, evolução da vida sob todas as suas formas, existência do mal na Terra, experiências espirituais - e CALCULOU que Deus tem 62% de probabilidades de existir.
62%!
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E notem: o mal na Terra teve muita, muita influência neste resultado.
Se a noção de Deus fosse a que adoptamos, e da qual não faz parte que ele seja BOM (o que não significa que seja necessariamente MAU), se a noção de Deus fosse a que adoptamos, dizia, a probabilidade matemática da sua existência estaria seguramente muito acima dos 90%.
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Mas não relevemos esta experiência. Façamos nós o nosso próprio BALANÇO.
E perguntemo-nos...
Será que a prova cosmológica, a prova teleológica, a prova moral, a prova da iluminação divina e a prova ontológica, enfim, as cinco provas de que falamos a favor da existência de Deus, será que estas provas, dizia, constituem, no seu conjunto, a PROVA-GLOBAL de que DEUS existe?
Por outras palavras: Será que, à luz desta PROVA-GLOBAL, é possível afirmar que DEUS existe com um grau de evidência que exclua a DÚVIDA RAZOÁVEL?
Pela minha parte, muito francamente, julgo que SIM.
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E decomponho esta minha conclusão em DUAS FRASES, com as quais termino a minha intervenção.
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Entre os mistérios que se tornam mais enigmáticos à medida que neles meditamos, persistirá sempre a CERTEZA ABSOLUTA de estarmos perante um poder infinito do qual procedem todas as coisas.
Esse poder infinito é – COM UM GRAU DE EVIDÊNCIA QUE EXCLUI A DÚVIDA RAZOÁVEL - o Ser de quem os demais seres recebem a existência, o Ser primeiro, fora do espaço e fora do tempo, espírito dotado de entendimento e de vontade, que é eterno, imutável e que existe por si mesmo, não tendo sido criado por nada.
Afirmo, pois, que DEUS existe. E afirmo que DEUS criou a vossa espada.
Obrigado.

ANTÓNIO SÁ COIXÃO

Ei-lo.
O arqueólogo do terreno, que tem calos nas mãos e não limpa as unhas antes de atacar a boroa.
Ei-lo.
O chefe da campanha (no caso, Vale do Mouro) filando o estudante que fuma o segundo cigarro seguido enquanto namora o colherim.
Ei-lo.
O homem que ama a sua terra (Freixo de Numão) e que namora com todas as terras à volta, escavando-as até ao tutano.
Ei-lo.
É António Sá Coixão.
A sua clonagem impõe-se. Portugal inteiro passaria a respeitar e a estudar o seu património. Estudantes de arqueologia teriam finalmente uma escola de campo em permanência, como têm no Verão quando recebem da ACDR cama e mesa, que a roupa lavada é com cada um e não é coisa que se peça a quem mete as mãos na terra todos os dias (e porventura em outras coisas também telúricas).
Ei-lo.
Um homem que mostra que o país não acaba quando o mar deixa de se cheirar.
Um homem que estuda e que labuta.
Um rústico de saber feito e experiência provada.
Um arqueólogo que prospecta, escava e publica (não é para todos...).
Um nosso amigo.
Que devemos estimar.

Na parte que me toca, obrigado. Pagava para voltar a escavar com a malta de Freixo de Numão e também para voltar a beber umas cervejas com o Beto, o João Piruletas e toda a super-equipa da pá e picareta.

domingo, 1 de novembro de 2009

PONTAPÉ DE SAÍDA

Com a presença de três dezenas de alunos, Francisco de Almeida Garrett inaugurou a série de conferências que o GAP se propôs realizar. Durante 45 minutos, o debate sobre a existência de Deus - cuja probabilidade é, segundo um autor citado, de 62%... - e sobre uma espada romana que afinal não tinha apenas 2.000 mil anos mas muito milhões de anos foi intenso e original. Em breve estará aqui uma síntese da prédica (que ainda está no prelo e, portanto, foi uma ante-estreia) e do debate que se seguiu. Parece ter sido inegável o interesse despertado pelo palestrante e pelo tema abordado pois antes e depois da palestra formal na sala de reuniões o nosso convidado continuou a ser "provocado" e solicitado, aqui já com algumas cigarradas a ajudarem o exercício mental.

NA SENDA DA DIVINDADE


Sendo a primeira iniciativa do GAP, a palestra interactiva marcada para hoje, segunda-feira, às 15 horas, na sala de reuniões da FLUP (piso 2), com Francisco de Almeida Garrett garante desde logo a presença de um homem do século XIX. O autor de "Na Senda da Divindade" é um ainda jovem jurista que tem provocado algum caos no sistema legal português, detectando-lhe hiatos e disparates, e irá ter como mote "a relação da Arqueologia com Deus", um mote apenas e mais nada. Só para abrir o apetite, aqui deixo uma sinopse do livro em epigrafe.


O presente documento versa sobre um tema universal, a divindade, e procura fornecer ao leitor uma chave que lhe permita pôr em ordem os seus pensamentos quando busca respostas para as questões que necessariamente coloca a si próprio: Quem sou eu?, De onde venho?, Para onde vou? Trata-se de uma composição literária em forma dialogada, concebida com a intenção de ser acessível ao homem mediano e de o fazer participar, com limitações embora, no debate filosófico acerca das chamadas provas da existência ou inexistência de Deus que foram alvo de discussão ao longo da história da filosofia. Prossegue ainda hoje, no mundo moderno, o debate sério e rigoroso do ponto de vista intelectual acerca dessas provas, ao contrário do que possam supor as massas, os simples e até as classes elevadas. O Deus sobre que versa a discussão é o Deus da filosofia, o Absoluto, e não necessariamente o Deus de qualquer específica religião, donde se segue que o texto desperta igual interesse em leitores ateístas, agnósticos e teístas de qualquer religião. Do Ocidente ao Oriente. Anexa-se, a final, uma pequena lista alfabética das individualidades e das figuras mitológicas focadas ao longo da obra, pouco mais de uma centena, fazendo-se de igual sorte a caracterização sumária das mesmas. Poucas são as barreiras que este livro coloca a quem procede à sua leitura: aqui e além aparece um argumento mais difícil de compreender, um preciosismo de linguagem, uma palavra menos comum, uma expressão latina. Mas basta ao leitor ter a paciência de avançar um pouco, porventura folheando o exemplar que tem na sua posse, e logo o texto se torna de novo bastante acessível. Uma pequena nota merecem as personagens do diálogo. Para além de um idoso de nacionalidade grega, Eurípedes, que tem a singularidade de ser um homem apaixonado pelas crianças do mundo inteiro, o conciliábulo compreende três personagens solitárias com diferentes perspectivas acerca da realidade – Alice, agnóstica, Gabriel, ateísta, e António, teísta -, que discutem lealmente, à luz da razão e não da fé, a hipotética existência ou inexistência de um ente divino. A conversação trava-se na famosa cidade de Atenas, mas afigura-se um pouco misterioso o exacto contexto em que ocorre: onde, quando, a que horas. É legítima a suposição de que se desenrola nas redondezas de um monumento sublime onde outrora desfilaram grandes génios das artes, da literatura e da filosofia.
II – PERSONAGENS DO LIVRO
Descrição que Alice faz de si mesma: “Sendo eu apátrida e solitária, pouco mais possuo para além da minha razão e da minha origem semita, em virtude da qual já dobrei os joelhos na poeira dos caminhos, suportando ameaças, opiniões e nomes”. Descrição de Eurípedes (efectuada por Alice): “É Eurípedes, um bom ser humano, acintoso embora, que conheci em tempos neste mesmo local. Surgiu-me, por entre a neblina, deslumbrante, alto e direito, barba fina e cumprida, de rosto escaveirado, pele ressequida, olhos cavados fundo nas órbitas, de onde brota uma esperança desmedida nas crianças deste mundo e na Organização das Nações Unidas”. Descrição que Gabriel faz de si próprio: “Sinto muitas vezes que me restam tão-só uns anos pela frente, porventura poucos, muito poucos. Sem esposa, sem filhos, sem fortuna pessoal, nada mais me resta senão aguardar pelo fim. E aguardarei com a firmeza de quem, em vida, cumpriu os seus deveres sem olhar a resultados. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem honesto”. Descrição que António faz de si mesmo: “Sendo eu um velho professor de aldeia, sem alunos nem ouvintes, pobre e filho de pobres, desde a mocidade habituado à dor e ao sacrifício, de muito pouco necessito para me sentir feliz. Tirem-me, porém, a divindade, e sentir-me-ei sem nada!”.
III – FILÓSOFOS EM CONFRONTO
Face às posições antagónicas que Alice, Gabriel e António manifestam relativamente à existência de Deus, são colocadas em confronto ideias de consagrados filósofos, entre os quais os seguintes: Anselmo, Tomás de Aquino e Hegel, citados por António (teísta); Marx, Engels e Feuerbach, citados por Gabriel (ateísta); Kant, Hume e Huxley, citados por Alice (agnóstica).